Rubi chegou ao endereço escrito no guardanapo. Estranhou o lugar, chegou a pensar que estava errada, já que a numeração naquela cidade é sempre confusa. Conferia enquanto calçava suas sandálias de salto altíssimo, conforme o gosto do Dono. Era lá mesmo! Era um lugar meio sombrio, com uma lembrança de cheiro de mofo que recendia. As paredes meio velhas, o reboco caindo, a tinta já desgastada, soltando-se em camadas. Mulheres e homens apressados subiam e desciam as escadas, ajeitando as roupas no corpo. Era um daqueles lugares que, em geral, rotulamos como “lugar suspeito próprio para encontros furtivos”. Pelo movimento, pela aura do lugar, parecia mesmo algo próximo a um prostíbulo, ou o correspondente a um hotelzinho fuleiro de alta rotatividade. Para completar o quadro desolador, ainda havia uma escadaria enorme e em espiral: rubi deu graças por estar sem bagagem.
Uma “bela donna”, escornada na soleira, com as tetas generosas à mostra e um olhar de lascívia, trocou com rubi duas frases: mesmo com seu italiano arrastado e pobre, ela entendeu que um homem havia lhe deixado o recado de que a esperava no primeiro quarto à esquerda do final da escadaria. Parecia que Ele era conhecido por aquelas paragens, a julgar pelo jeito familiar como ela se referia a ele.
A subida pareceu interminável; agora já em cima do salto, suas pernas tremiam: ela não sabia se era pelo número de degraus ou pela ansiedade e emoção do momento. Rubi bateu três vezes na porta. Quando ia bater uma quarta vez, a porta se abriu. Foi puxada pra dentro tão rapidamente que mal pode entender o que estava acontecendo. Arrebatada contra aquele peito nu, peludo, sentiu uma língua entrando em sua boca e a cortando com fúria, com urgência, ao que prontamente correspondeu num beijo molhado e quente. Sentiu também que as mãos Dele soltavam e puxavam seus cabelos presos com tanto cuidado. Neste misto de excitação e perplexidade, foi imobilizada pela força daquele corpo tão maior e mais forte que o seu e ouviu:
- Minha cadela, isto é pela saudade que senti de você e isto pra que se lembre agora do peso da mão de seu Dono.
Foi assim que sentiu o primeiro tapa estalado em sua cara de vadia.
- Espero que tenha se depilado...
- Sim.
- Não ouvi bem. O que disse?
- Disse que sim.
Mais um tapa na cara, agora apertando forte o braço de rubi:
- Não está se esquecendo de nada? Vou perguntar de novo: você se depilou sua puta?
- Depilei sim Senhor.
- Fala mais alto!
- Depilei sim, SENHOR!
- Melhorou! É uma boa menina, mas vejo que uma surra tem te feito falta, minha cadela.
Dito isto afrouxou um pouco o peso da sua mão em seu braço.
- Assustada cadela? Você não veio aqui não foi prá isso? Servir-me? Ou achou que eu estava esperando uma princesa? Eu te conheço bem, sei que não é o que aparenta ser. Sei o quão vadia e ordinária tu és. Das putas mais vagabundas e sujas que já conheci. E agora que eu te dei a honra de me servir, vai ser a minha vadia, mas tem de ser do jeito que eu gosto, na hora em que eu quiser, e o quanto eu quiser, entendeu?
- Entendi sim senhor.
E assim seguiu: alternava carícias animais, com tapas na cara. Quantas vezes Ele havia repetido aquele gesto no passado. Nada era mais eficaz para deixar bem claro e fresco na memória de rubi, quem mandava e quem obedecia. Também tinha o efeito de excitá-la e potencializar assustadoramente os seus desejos mais primitivos.
À medida que ia levando os tapas, progressivamente seu corpo ia se abaixando, até que ela se postou aos pés daquele homem, beijando-os, agarrada ao seu calcanhar.
Satisfeito em ver o resultado de seu manejo, a fim de trazer inteira do passado aquela cadela, a levantou, fazendo com que apoiasse todo o peso de seu corpo desfalecido no dele. Vendo a surpresa estampada no rosto de rubi, já completamente desarmado, esboçou um sorriso sádico e indagou:
- Minha querida, esperava o que? Um hotel de luxo, champagne, flores, e poesias de amor em sua recepção? Este lugar combina perfeitamente bem com minha puta: tudo que precisa de limpo vai encontrar em cima da cama: uma toalha e uma roupa de cama, nada mais. É o suficiente prá ti. Agora vou dar uma volta. Quero que estenda muito bem a cama. Quero também que abra a valise que está em cima do criado, e arrume tudo que encontrar dentro dela sobre a mesa; tente se lembrar do jeito que gostava, ainda é o mesmo. Depois tome um banho, limpando-se bem para minha inspeção, que já conheces. Depois de tudo feito, e de estar limpa, me espere de quatro, como te ensinei: sobre as duas patas traseiras, as dianteiras à frente, espalmadas, rosto voltado para o chão e cabeleira jogada à frente do mesmo; lembra-se? - Antes que rubi pudesse responder completou:
- Não vou trancar a porta, já que podes ter uma urgência e ter de sair. Mas urgência para mim é no mínimo incêndio; caso contrário, que tudo esteja como ordenei quando da minha volta. Dito isto se foi.
rubi se sentia meio tonta, atordoada. Dadas as circunstâncias, não esperava por aquilo. Achava que ia chegar e ter um tempo para se ambientar. Estavam há muito tempo separados. Além disto, Veneza é tradicionalmente um dos destinos mais românticos do mundo, para o encontro de enamorados. Na verdade, o relacionamento entre eles sempre havia sido multifacetado. No entanto, desde o início ficou claro para ela que seu Dono priorizava a sua submissão. Sem ela, todas as outras possibilidades estariam excluídas. Uma relação construída nos moldes baunilha não mais lhe interessava há tempos. Na verdade, desde que se separaram, rubi percebeu que nem tão pouco a ela isto interessava mais. Uma vez provada a fruta, ela mesma havia se condenado a estar dali pra frente, com ou sem dono, aprisionada pelos reclames de sua natureza. Se ainda estava sem dono, era porquê não havia tanto tempo assim que tinha reorganizado sua vida e se colocado em condições para servir. Além disso, por sentir vontade de relações duradouras, nunca foi tão simples assim encontrar um Dono. rubi queria alguém que a completasse, com quem pudesse firmar um contrato com intenções de permanência e vida longa e por isso não tinha pressa.
Embora atordoada, no fundo preferia que estivesse sendo assim, que seu dono houvesse decidido começar por deixar bem claro que prevalecia e subsistia a lógica que foi estabelecida desde o começo entre eles: a lógica da D/s.
rubi não sabia exatamente quanto tempo teria para cumprir suas ordens e não teria ousado perguntar. Então apressou-se em fazê-lo. Primeiro a cama, esticadinha, cheiro de limpa. Depois arrumou tudo como ordenado. Depois o banho, este foi rápido, afinal já tinha se depilado, e conferido tudo em Roma. Pensou em se postar como ordenado somente quando ouvisse os passos dele nas escadas. Mas não o fez, a ordem era para ficar esperando por ele assim: ela nunca conseguiu escamotear e não conseguia também agora. Por isso o tratava o tempo todo por Dono: tudo parecia igual para ela, pelo menos em sentimentos, pelo menos naquele momento. Rezou para que ele não demorasse, mas se verteu ajoelhada sobre as patinhas traseiras.
Sempre que esperava por Ele sentia-se esvaziar. Esvaziar de tudo, de tudo que não fosse Ele. Queria estar inteira para recebê-lo. Este ritual interno lhe preparava para o serviço. Embora aquele lugar fosse uma espelunca, devia estar bem próximo à Piazza San Marco. É difícil se localizar numa cidade como aquela, mas rubi ouvia ao fundo, no silêncio, o duelo das orquestras que sempre acontecia naquela praça, em frente aos cafés, com o intuito de atrair clientes. Aquela música ao fundo, quase uma providência divina, ajudava-a na espera. Estava ouvindo o tema do filme “o candelabro italiano”, quando sentiu a porta abrir-se.
Um frio a lhe cortar o corpo. Ele, em silêncio, a rodeou lentamente, com pequenos passos. rubi sabia que, nesta inspeção tudo era conferido e que deveria estar sempre impecável, sob pena de ver toda sessão ser suspensa. Depois disto nunca sabia ao certo o que viria. Cada vez foi uma vez. Dependia do dia, do ânimo, da vontade Dele. Só se repetiam ritualisticamente o encoleiramento e estes seis primeiros degraus. E assim foi. Ouvia-o repetindo os comandos iniciais que lhe ensinara quando do seu adestramento e ia descobrindo que não havia se esquecido: será que isto era como andar de bicicleta? Depois de inspecionada naquela posição, ao ouvir uma palma virou-se. Outra palma, virou-se novamente: ainda sobre as duas patas traseiras, mas o corpo já erguido, olhar baixo, mãos estendidas e espalmadas em sinal de disponibilidade e oferecimento. Nesta hora ele passou-lhe pelo pescoço uma fita cor de rosa que havia trazido da rua. Não tinha uma coleira, mas era impensável iniciar qualquer sessão sem o ritual litúrgico do encoleiramento, ainda que simbólico. Com a ponta dos dedos Ele ia verificando a textura, maciez da pele, nesta posição verificava especialmente os mamilos, as unhas. Mais uma palma e mudava a posição novamente. Eram seis as posições em que ele a inspecionava: os seis passos iniciais para adentrar no céu, ela dizia.
Chegaram à última delas: de pé,virada para parede, mãos cruzadas acima da nuca, joelhos um pouco dobrados e pernas semi abertas. Apenas quando rubi se postou na sexta e última posição ele empunhou o chicote pela primeira vez. Seu dono tinha alguns, mas este era o que ele mais gostava. Era um chicote de três tiras. Alisando a parte interna das coxas de rubi, ele sinalizou a abertura exata que desejava para as pernas de sua puta. A esta altura ela já escorria de tanto tesão. Passou a ponta do chicote lentamente num movimento de vai e vem no grelo de rubi, inchado e latejando. Depois, encostado em suas costas, a enlaçou por trás, apertou seus mamilos com uma das mãos e com a outra colocou a ponta do chicote rente a sua boca e ordenou-lhe que o lambesse.
- Sente saudades deste chicote, rubi?
- Muita senhor. A falta dele dói na minha carne.
De costas, apenas sentia a respiração de seu dono e a voz em sua nuca.
- Você está impecável, sabe que não precisa ser castigada, mas sabe também como e quanto gosto de chicoteá-la apenas para o meu deleite.
- Sei sim senhor. Estou ao seu dispor, o senhor sabe.
- Então, você mesma vai me dizer quantas serão as chicotadas desta vez. Quantas rubi?
Rubi nunca mais havia levado uma chicotada nestes dois anos. Fora adestrada para o spanking, mas receou depois de tanto tempo ter perdido o que havia conquistado. Nunca foi masoquista: de certa forma invejava as masoquistas por achar que estas tinham uma facilidade que ela não tinha. A dor nunca foi para ela uma fonte primária de prazer, embora nos últimos tempos, à medida em que seu dono revelava seu lado sádico, ela também desenvolvia possibilidades ate então não imaginadas. Contudo, seu prazer era oferecer sua dor para o prazer de seu dono. E desde o início havia lhe dito que, se não era tão grande sua resistência, toda ela seria devotada a ele. Com o tempo descobriu que nem era tão pequena assim. Tentava pensar em um numero que correspondesse a esta “não economia de esforço”que sempre se propôs ter em relação a ele. Mas que fosse também algo possível para ela, possível com esforço, mas possível. Um número lhe veio à mente: nem menos e nem mais do que achava possível para ela naquelas circunstancias: nisto residia a santidade da carne de uma submissa: não ter muito, mas oferecer este pouco tudo ao dono, buscando que seja sempre e cada vez mais. rubi sabia também que, na realidade, era Ele quem iria determinar o número das chicotadas que levaria: se considerasse que pediu poucas, compensaria na força da sua mão e o contrário também era verdadeiro.
- Cinqüenta chicotadas meu senhor.
- Você sabe que não gosto de ouvir gritos e lamúrias, não sabe?
- Sei sim senhor.
- Quer uma mordaça, rubi?
- Não é preciso senhor,eu não vou gritar.
- Então espalme as mãos na parede, em cruz, e só conte uma a uma, o mais claro e audível que conseguir. Na vigésima quinta vire-se de frente e conte até o fim.
E foi assim que o açoite começou, e ela contava e sentia dor, misturada ao prazer de servi-lo e este prazer a anestesiava e a fazia escorrer e novamente se transformava em dor. Mais do que resistir, queria também aprender a desfrutar o tempo todo de um spanking, por saber o quanto as duas coisas agradavam ao seu dono. E foi assim que chegou à última chicotada, dolorida e feliz, porque sentira novamente um chicote empunhado por ele em sua pele. As últimas pareceram levar uma eternidade para passar, na última, rubi desfaleceu no chão, cansada, marcada, com alguns hematomas naquela pele branca como neve.
Molhada por suor, por tesão, lágrimas e sangue, viu seu dono sair do quarto por uns minutos. Ao voltar, a carregou para dentro de uma banheira velha e enferrujada que ele já havia enchido de água morna.
- Descanse aqui rubi, gostei de ver sua coragem, deixou seu dono feliz.
Isto para ela era quase que ungüento de morfina, que lhe anestesiava as carnes e a alma. Sentiu uma paz, que a fez relaxar e dormir por uns instantes naquela banheira morna, sentindo no corpo a presença dele.
Finalmente recomposta, depois de dormir profundamente, ela mesma saiu da banheira, se secou e foi para os pés do dono. Sentou-se agarrada ao seu tornozelo, como era seu hábito. Ele estava ouvindo uma música suave e de olhos fechados, um ar tranqüilo.
- Como se sente rubi?
- Muito bem senhor, me sinto feliz.
- Prepare agora o meu banho.
- Sim senhor.
- De inverno.
rubi sorriu feliz. Banho de inverno era o nome que ela havia dado ao banho que lhe preparava no próprio leito. Esquentou no fogareiro um tanto de água, a temperou como era do gosto dele, dentro de uma bacia velha que encontrou, pingou umas gotas de essência de cedro que havia comprado em Roma. Vendo que não tinha as compressas necessárias, cortou em pedaços uma toalha que havia trazido. Tudo pronto, encontrou seu dono, ainda vestido, sentado na beira da cama. Despiu-o peça por peça. Já nú, fez sinal para que ela se ajoelhasse e colocou-lhe uma venda. rubi havia colocado a bacia e as compressas no cantinho da cama e tateando descobriu a posição em que seu dono estava deitado. Com cuidado foi torcendo as compressas e passando uma a uma em todo corpo dele. Depois passou a enxugá-lo com a língua, massageando em seguida cada parte daquele corpo no qual fazia o seu altar. Nunca havia feito aquilo antes, estando vendada. Sentia pela sinalização que recebia que somente não tinha permissão de tocar no pau dele. Uma vez lavado, enxugado e massageado de ambos os lados, ele se levantou e entregou-lhe um roupão para que ela o vestisse nele. Seu dono, nestas ocasiões usava sempre um de seus hobbes, os quais eram obrigação de rubi manter limpos, cheirosos. Ao final de cada sessão, ela sempre os levava para providenciar sua lavagem. Claro que, por instinto de cadela, antes de mandá-los pra lavanderia, dormia um ou dois dias abraçada a eles, farejando o cheiro do dono.
Assim, pronto, Ele sentou se numa antiga e carcomida poltrona. Mandou que ela tirasse a venda; ligou um velho aquecedor elétrico que havia naquele quarto decadente. Sentia que rubi tremia de frio, afinal, estavam em pleno inverno.
- Me sirva uma bebida como gosto, prepare meu charuto como te ensinei e depois deite-se.
rubi se encaminhou pra cama, e ouviu uma sonora risada.
- No chão, cadela!
Ficou assim, pisando e esfregando os pés no corpo dela. Às vezes com mais força, as vezes com menos. Quando queria que ela virasse, enfiava o pé bem no meio da sua boceta, completamente encharcada e lhe dava o dedão pra que ela chupasse. Sua vontade de se masturbar era imensa, crescia a cada instante; mas quando descia a mão era imediatamente advertida de que não.
E foi assim, perdida em seus pensamentos, tentando imaginar se Ele estava tão excitado quanto ela, que sentiu seu dono levantar-se, sentar-se na beira da cama, colocá-la de joelhos frente a ele e desamarrar o seu hobbe. Sentiu então o pau de seu dono sendo colocado em sua boca.
- Mama cadela, vamos ver se ainda sabe como eu gosto. Se gozar sem minha ordem, ou me fizer gozar antes que eu lhe ordene, você vai ser castigada.
Rubi estava prestes a gozar, nem precisaria se tocar pra chegar ao gozo, tamanha a excitação. Sugou aquele pau com a avidez de quem está privada há muito desta fonte de alimento. Aprendeu com ele que, a boa mamada é aquela que a fazia babar, engasgar, emitir grunhidos ... e assim estava, feito cadela babando, se deliciando, sugando, lambendo, enquanto acariciava e o punhetava também com as mãos nos intervalos em que precisava tomar fôlego para respirar. Sentia a porra dele se movimentar dentro e sabia que a qualquer momento seu gozo explodiria.
- Agora rubi, vem comigo, vamos gozar juntos sua puta. Mas quero que você goze sem se tocar, apenas se esfregando em mim, na minha perna. É assim que as cadelas gozam. E assim ela fez, se esfregou na perna do dono, mexendo numa luxúria reservada somente às vadias. Foram poucos minutos ate sentir o jorro quente em sua cara, engolindo o que podia e espalhando com os dedos o resto. Ambos desfaleceram, Ele na cama, ela no chão.
Apagaram os dois, pela emoção daquela dia. Quando já ia alta a madrugada, sentiu seu dono puxando sua coleira.
- Vem pra cama meu brinquedo. Hoje vai acordar nos braços do dono.
Se morresse ali rubi morreria feliz. Mas faltava ainda algo, faltava ainda viver a fantasia que tantas vezes confidenciou ao seu Dono... esta era na verdade a grande saudade que tinha do carnaval de Veneza.