Perdida em meus pensamentos, deixei-me ficar ali, sentada, sentindo o cheiro da relva molhada e ouvindo o barulho da cachoeira, a água rolando sobre as pedras....por tempo demais. É preciso me apressar, logo anoitecerá. Ando apressada , com as mãos vou abrindo trilha entre a mata...a noite cai
rapidamente...começo a correr...os galhos secos machucam meus pés, mas eu nao paro, não posso parar...algo enlaça meus tornozelos, me leva ao chão, tento me levantar, mas minhas pernas estão presas. Travo, então, uma luta com aquilo que me aprisiona, não consigo ver o que é, quanto mais tento me desvencilhar, mais fico presa. Extenuada, sem forças, fico ali entregue à sorte. Frio, escuridão, sons estranhos, os galhos das árvores vão desenhando formas assustadoras, já não sinto mais meu corpo...está amortecido, imóvel...uma coruja me espreita, fico ali fitando seus olhos...um
entorpecimento vai tomando conta de mim... sombra...silêncio...nada....tudo se apaga...
Um perfume amadeirado entra pelas minhas narinas me despertando...abro lentamente meus olhos...minha cabeça dói...entre minhas mãos, uma rosa vermelha...não compreendo...A luz é suave, apenas algumas velas com suas pequenas chamas crepitantes iluminam o suficiente para que eu possa
reconhecer ali o que concluí ser um dormitório. Olho tudo em volta, tentando identificar onde estou...aos poucos vou me recordando do acidente...então eu havia sido resgatada? As paredes são de pedras, sem janelas...não há ninguém ali...sento na cama...estou zonza...confusa...só consigo me lembrar da floresta, do escuro, frio, queda, medo...nada mais em minha mente, quem sou, de onde vim, como me chamo...vazio.
Levanto cambaleante, caminho em direção à porta...trancada...bato, chamo...sem resposta.
Estou fraca demais para continuar insistindo... encostada a porta, vou escorregando até chegar ao chão e, ali, me abandono...
Vejo minha imagem refletida num espelho e nele não me reconheço...me aproximo...meus cabelos estão cuidadosamente penteados...ajustado em meu pescoço, um colar pesado, de pequenas pedras vermelhas...muitas delas...estou nua...braços e pernas arranhadas. Procuro em volta, algo para me cobrir...em vão.
Ouço passos do lado de fora, o trinco da porta gira, corro para a cama e me encolho na tentativa de ocultar meu corpo despido. Não tenho coragem de
levantar a cabeça para ver quem entrou...os passos se aproximam lentamente e param a minha frente. Sinto seus olhos sobre mim...é uma presença
forte...inquietante...
Ele pega minhas mãos e me coloca em pé à sua frente. Não consigo falar...nem olhar...nem reagir... Vai me vestindo, em silêncio...um longo vestido negro de decote profundo. Ajeita meus cabelos...aproxima-se...beija minha face...não me movo...
Ele me conduz até uma mesa, no salão ao lado, onde já está servido o jantar.
Puxa a cadeira e me faz sentar...enche duas taças com vinho tinto, me oferecendo uma. Sinto queimar meus lábios, mas, aos poucos, aquela bebida
vai me aquecendo... Comemos em silêncio...eu, olhar baixo...o medo vai se dissipando...
E, assim, sem pronunciar uma só palavra, vai invadindo minha mente e se fazendo compreender...e, desta forma, eu sabia que deveria deixar a mesa e voltar ao quarto. Obedeço. Vem caminhando logo atrás...entra...fecha a porta... só então, me viro e olho seu rosto...seu olhar ordena que fique ali parada, a espera. Aproxima-se, toca meu colo, desliza as mãos pelas minhas costas e me puxa pra si...meu corpo queima em contato com o dele...minhas pernas tremem...segura minha nuca e me beija os lábios...sua língua invade minha boca entreaberta...prende meus lábios com os dentes...sinto gosto de sangue... Afasta um pouco o rosto...seus olhos tem um brilho estranho...um
brilho que me faz mergulhar cada vez mais fundo, sem poder desviar...segura meu quadril e vai levantando meu vestido...passa um braço por baixo da minha coxa, erguendo apenas uma das minhas pernas e me penetra profundamente, fica ali um pouco parado...dentro de mim...apóia a cabeça no meu colo...começa a movimentar-se lentamente... indo e vindo dentro de mim...por muito tempo... chego muito perto do gozo, mas ele não me permite, ainda...sua boca procura a minha...afasta meu colar...beija meu pescoço...primeiro
suavemente...depois com sofreguidão... suga...emitindo sons que não me parecem humanos...me excita ainda mais...morde, forte, muito forte...explodimos em gozo...os dois...ao mesmo tempo...caio na escuridão.
Acordo antes do amanhecer, ele dorme, contemplo seu rosto, seu corpo, velo um pouco seu sono. Um fio de sangue ainda escorre sobre meu seio...e então compreendo...já não me pertenço mais...vivo através dele...
Na escrivaninha encontro um livro...um livro que ainda está por ser escrito, tem apenas título...Dandara...começo a escrever...o relato do primeiro dia de toda a minha eternidade...