I
Ele começou a despertar, mas não abriu os olhos. O gosto amargo na sua boca denunciava: a noite havia sido de excessos de álcool. Logo teve consciência da dor que martelava sua testa, espalhando-se pela cabeça. Sentiu um leve movimento no colchão, como se alguém estivesse levantando da cama, mas não lembrava de ter dormido com ninguém. Abriu os olhos, estranhando tudo à sua volta, e teve tempo de vê-la de costas, entrando por uma porta que depois ele descobriu ser do banheiro.
``Caralho, onde eu arrumei essa maravilha?´´ – ele pensou enquanto a via desaparecer através do vão da porta. Longos cabelos loiros escondiam mais da metade das costas dela, mas com o movimento do seu caminhar, ele pôde ver que não havia marcas da parte de cima do biquíni, em contraste com a minúscula marquinha logo acima da bunda. E, ah, que bunda! ``Ela deve tomar sol de topless´´ – ele pensou, tentando recordar dos seios dela. Mas a única coisa que conseguia pensar era naquela bunda.
A dor na cabeça parecia ter piorado, e quando ele tentou levar as mãos à testa, não pode move-las. Tentou novamente, e quando sentiu as cordas apertando ainda mais o seu pulso, teve consciência que estava com as mãos atadas às costas. Uma onda de pavor se formou em seu peito enquanto ele se movimentava e se retorcia na cama. Olhando para suas pernas, viu a outra corda que prendia seus dois tornozelos juntos, subindo por suas canelas, coxas, trançando-se com ela mesma, formando uma teia de aranha, até quase a cintura. ``Que merda é essa? QUE MERDA É ESSA??´´ – ele gritou.
Algum tempo depois, um pouco mais calmo, ele tentava relembrar alguma coisa da noite passada. Estava com os amigos em um badalado bar da moda, e como sempre, sentados nos bancos altos junto ao balcão. Dali, tinham uma visão quase completa de todo o ambiente. Bebiam e comentavam entre eles sobre todas as mulheres que entravam no bar. A ruiva com o top de couro, mostrando todas as sardas do seu busto. As duas morenas que não se desgrudavam, com certeza eram namoradas. A mulata com o coroa, seria uma profissional? E as cinco amigas que chegaram juntas? Será que ela era uma delas?
O barulho da água cessou, e logo ela sairia do banheiro. Ele então ordenaria que ela o soltasse, colocaria um fim naquela palhaçada. Afinal, quem ela pensava que era? E mais, quem diabos ela achava que ele era?
Alguns minutos se passaram, até que finalmente ela saísse do banheiro. Ele ouviu a porta se abrindo, e virou o rosto pronto para enfrenta-la, mandar que o soltasse. Não estava achando graça nenhuma naquela brincadeira. Mas quando a viu, ficou petrificado. Nunca tinha visto uma mulher tão bonita quanto ela. Mesmo sem maquiagem, os cabelos ainda molhados, displicentemente vestida com uma roupa de ginástica, sua beleza saltava ao olhos.
Ela ficou em pé em frente à cama, olhando-o diretamente nos olhos, com o olhar mais frio e determinado do mundo, como se esperasse que ele reclamasse, brigasse, enfim, dissesse alguma coisa. Como nada disso aconteceu, ela girou sobre os calcanhares e saiu do quarto em um andar confiante, de quem sabe a sua posição. E ele ali, hipnotizado por ela.
Quando ele finalmente saiu do transe, era tarde demais. Ainda chamou por ela, mas ela não podia mais ouvi-lo. ``Será que ela volta?´´ – ele pensou, sentindo o desconforto de não poder mudar de posição. Queria saber que horas seriam, como tinha ido parar ali, e, principalmente, qual a razão de estar todo amarrado.
II
A NOITE PASSADA
Ela entrou no bar sabendo que aquela seria ``a´´ noite. Os longos cabelos loiros faziam graciosos movimentos quando ela caminhava, contrastando com sua pele bronzeada. A barriga malhada exibia um delicado piercing, e logo abaixo do umbigo se via as pontas da tatuagem tribal que a justíssima calça jeans de cintura baixa não conseguiam esconder. O top branco cobria parcialmente seus belos seios, mas o tecido não era grosso o suficiente para não marcar os bicos, sempre durinhos e pontudos.
Já era a terceira sexta feira seguida que ia ao bar, mas das outras vezes mantivera-se quase que escondida, estudando-o e analisando de longe qual seria a melhor tática de abordagem. De certa forma, ficara um pouco decepcionada. Achava que passado tanto tempo, e comparando com ela mesma, ele seria um pouco mais maduro. Não podia ouvi-lo, mas sabia que o papo dele com os amigos era fútil como o de um adolescente. Mas talvez ele fosse isso mesmo, um eterno adolescente. Coisa típica de quem nunca precisou dar duro na vida.
Chegou à conclusão de que não seria nada difícil colocar seu plano em prática. Com esse jeitão bobo, e com a quantidade de álcool que bebia, seria como roubar doce de uma criança.
E assim foi. Passou uma vez em frente à eles, e na segunda vez já ouviu a cantada ridícula do tipo ``seu pai é arquiteto? É que você é uma obra!´´. Lamentável. Mas era a deixa que ela precisava. Os amigos deram um jeito de desaparecer, enquanto ela dava um jeito de nunca deixar o copo dele vazio. O resto foi conseqüência.
Pouco mais de uma hora depois ela entrou no quarto, atraindo o olhar dele. Parecia que, suada, sua pele ganhava ainda mais brilho. De tudo que ele pensou em dize-la e xinga-la enquanto ela esteve fora, a única coisa que conseguiu dizer foi:
- O que está acontecendo?
Ela sorriu.
- Fique calmo. Isso não é um seqüestro. Ou melhor, até se pode dizer que eu seqüestrei você. Mas o sentido é outro.
- Como assim? – ele perguntou, confuso.
- É o seguinte: isso é um jogo, certo? Eu seqüestrei você para usa-lo, para fazer com você o que eu bem entender. Mas, e aí é que está a diferença, você não é obrigado a nada. Se quiser parar de jogar agora, basta me falar que solto você. Mas se estiver disposto a conhecer prazeres que tenho certeza que você nunca experimentou, a gente continua. Que tal?
O que essa mulher tinha, que o deixava assim entregue, confuso, sem nem conseguir falar? ``Conhecer prazeres, – ele pensou – foi isso que ela disse? Prazer é sexo!´´
- E se, durante o jogo, eu não quiser mais, também posso parar? – ele perguntou, apenas por perguntar, pois se ela dissesse pra ele se jogar da ponte do Guaíba, ele faria.
- Claro que sim.
- Então eu topo. – ele respondeu prontamente.
Ela sorriu. Quanta facilidade. Como ele era fraco. Mas não perdia por esperar.
- Então vou lhe explicar o jogo. Preste atenção, pois não quero perder meu tempo explicando novamente. A partir de agora, você é meu escravo. Minha propriedade. Eu faço o que quiser com você, e você faz tudo o que eu mandar. Caso você me desobedeça, ou não se empenhe em cumprir minhas ordens, será severamente castigado. Entendido?
- Sim. Eu entendi. Vou ser seu escravo sexual, é isso?
- Sexual? Quem sabe? Mas eu não falei em nada sexual para você, falei? Você é meu escravo e fará o que eu mandar, e quem sabe poderá acontecer algo sexual, se eu julgar que você merece me dar prazer.
Disse isso, e afastou-se da cama. Entrou no banheiro e fechou a porta, e ele pode ouvir o chuveiro sendo aberto. Mais uma vez, sem estar na presença dela, a ira tomou conta dele. Como estava se sujeitando a isto? Como ela exercia esse poder sobre ele?
Alguns minutos depois a porta do banheiro foi aberta, e ele pode sentir o perfume que saía do banheiro, pouco antes dela aparecer na sua frente, inteiramente nua. Mais uma vez embasbacado diante da beleza dela, ele ficou imóvel vendo-a se aproximar e começar a soltar os nós das cordas. Sentia o cheiro que sua pele exalava, sentia o calor que a proximidade do corpo dela produzia, e mais uma vez teve certeza que toparia qualquer coisa com ela.
- Vá tomar banho. Você está fedendo a álcool.
III
Ele levantou-se da cama e foi rapidamente até o banheiro, envergonhado da sua nudez. A presença dela fazia-o sentir diminuído demais. Sentia-se nada perto dela.
Quando ele fechou o registro do chuveiro, sentiu a presença dela atrás dele, observando-o.
- Tem uma toalha ali. – ela falou, apontando a toalha pendurada. – Depois que você se secar, pegue aquele outro pano e seque todo o chão do banheiro. Não suporto chão molhado.
``Secar o chão do banheiro? O que ela pensa...´´ – ele pensou, mas logo lembrou do jogo que tinha consentido em participar.
- Tá bom, vou secar. – ele disse.
Ela deu um passo até onde ele estava, e com um rápido movimento de mão, apertou e torceu o saco dele, fazendo-o se retorcer de dor.
- Amiguinho, preste atenção. Quando eu falar com você, quando eu lhe der uma ordenzinha qualquer, você me responde: Sim, Senhora. Ok?
- Ok! – ele respondeu assustado.
Ela apertou e torceu mais.
- Sim, eu entendi! – ele gritou.
Ela cravou as unhas.
- Ai ai ai!! – ele berrou – Sim, Senhora.
Prontamente ela largou.
- Bom menino. Tem muito o que aprender ainda.
E saiu do banheiro, deixando-o ajoelhado no chão tentando se recuperar da dor.
Passaram-se dez minutos até que ele saísse do banheiro, após se recompor da dor e secar todo o piso. Encontrou-a sentada na cama, apenas de lingerie vermelha, as pernas cruzadas, esperando-o. Ficou na dúvida se ia até onde ela estava, se dizia alguma coisa à ela, ou se esperava uma nova ordem.
- Venha até aqui. – ela mandou, depois de algum tempo.
Ainda enrolado na toalha, ele começou a caminhar até ela.
- Não, não, não, escravo! Venha até aqui de quatro! E tire essa toalha. Venha até aqui de quatro, e nu. – ela viu a confusão no olhar dele, e resolveu aproveitar – E sinta-se satisfeito por desta vez eu liberar o rebolado.
- Sim, Senhora. – ele respondeu, pondo-se de quatro. ``O que eu estou fazendo?´´, ele pensou, enquanto se dirigia até a cama. Se por um lado, ele sentia-se bobo fazendo este jogo, por outro lado ele não conseguia dizer não para ela e parar com tudo.
Engatinhou até a frente dela, quando ela mandou que parasse.
- Aprenda uma coisa: jamais olhe para mim, se eu não mandar. Mantenha sempre o olhar baixo, e os ouvidos apurados para tudo que eu disser. Não vou tolerar nenhum deslize seu. Se o que fiz com você no banheiro doeu, você não perde por esperar meus próximos castigos. Entendeu?
- Sim, Senhora. – apressou-se em responder.
- Que bom. Agora você vai massagear meus pés. Corri durante uma hora hoje, e eles estão doloridos.
De joelhos no chão, pegou o pé direito dela entre as mãos. Ele há muito não era mais um garoto, mas naquele momento surpreendeu-se com o fato de não saber fazer uma massagem no pé de uma mulher. Nunca havia feito. Pelo contrário, em todos os seus relacionamentos eram as mulheres que o serviam, que faziam de tudo para agrada-lo. Sentiu vontade de conversar com ela, esta desconhecida que agora jogara o corpo para trás e recebia seus carinhos no pé, mas não soube se deveria. Melhor permanecer calado.
IV
A NOITE PASSADA
Ela sabia como provocar os homens, e ele não era exceção. Enquanto o álcool ia fazendo efeito, se insinuava de todas as maneiras, sempre se esquivando na hora H. Enfim, jogava com todas as suas armas.
Ele praticamente já não conseguia mais falar direito quando ela sussurrou no seu ouvido:
- Vamos para minha casa?
O convite prontamente foi aceito, e menos de meia hora depois ela acionava o botão que abria a porta da garagem, com ele quase apagado ao seu lado. Levou-o cambaleando até o quarto, e logo ele pegou no sono.
Ele era um homem grande, e com alguma dificuldade ela conseguiu despí-lo e depois amarrá-lo. Divertia-se imaginando o momento em que ele acordaria e visse o próprio estado. E mais, se ele entrasse no jogo, o que ele acharia que ela teria feito com ele naquela noite? Era óbvio que não teria feito nada sem o consentimento dele, mas faria essa dúvida perdurar para sempre na cabeça dele.
Depois tirou a própria roupa e deitou-se nua, como sempre dormia.
Ele se esforçou como pôde, massageando o pé dela. Primeiro o direito, depois o esquerdo, sentindo a maciez da sua pele. Ela permaneceu o tempo todo deitada na cama, primeiro retomando o que havia planejado para ele, depois até curtindo um pouco a massagem. Mas ele não levava muito jeito para massagista.
Sentou-se na cama e mandou que ele se aproximasse, de joelhos. Revirou então os lençóis da cama e pegou a coleira que deixara ali.
Ele permaneceu com o olhar baixo, mas temeroso e curioso em relação ao que ela faria agora. Quando sentiu a coleira de couro sendo colocada no seu pescoço, perguntou:
- O que é isso?
Ela não respondeu. Ele então lembrou-se de como deveria trata-la.
- O que é isso, Senhora?
Ela tentou conter um sorriso.
- É uma coleira, escravo. Agora você vai ser meu cachorrinho. Ou minha cadelinha. Ainda vou decidir.
``Cadelinha?´´, ele pensou. ``Como assim, cadelinha?´´. Mas achou melhor não perguntar nada. Preferia não saber.
Depois de fechar a fivela da coleira, ela passou a guia pela argola e levantou-se.
- Agora vamos passear.
Ela nem precisou falar. Era claro que se ele era o cachorrinho dela, deveria segui-la de quatro. Prontamente moveu-se atrás dela, sentido-se humilhado. Mas, mais uma vez, não conseguiu protestar.
Saíram do quarto com ela andando à frente, e ele de quatro atrás dela pelo corredor, até chegarem à escada. Ela então desceu devagar, para que ele não caísse, mas sempre mantendo a guia da coleira esticada. No andar térreo a escada terminava em uma grande sala com grandes portas envidraçadas que deixavam à vista o quintal. Atravessaram a sala e, já no jardim, ela sentou-se em uma das cadeiras brancas que ficavam em volta de uma mesa. Fez com que ele ficasse ao lado dela, ainda de quatro no chão, e amarrou a guia da coleira no encosto da cadeira.
Segundos depois ele viu um homem negro, vestido todo de branco, se aproximando com uma bandeja. Não sabia se tentava esconder seu rosto ou sua nudez. Que situação aquela! O homem colocou o que havia na bandeja sobre a mesa. Suco de laranja, frutas, pães, frios, e outras coisas que ele não conseguia enxergar da posição em que estava. Ela tomou um gole de suco, em seguida molhou os dedos e enfiou-os na boca dele.
- Está com sede?
Ele não estava, mas quem sabe se dissesse que sim, ela deixaria que sentasse ao seu lado.
- Sim, Senhora.
Para sua surpresa, ela chamou o homem negro e disse que ele estava com sede. O homem moveu a cabeça afirmativamente e afastou-se. Logo depois ele voltava com uma tigela nas mãos, e colocou-a em frente à ele.
- Pronto. Pode beber, escravo. – ela falou enquanto o homem novamente se afastava.
``Era só o que me faltava´´, ele pensou. ``Isso está indo longe demais´´. Olhou para ela, e disse que não iria beber assim. O que ela estava pensando? Não era isso que ele tinha imaginado, quando consentiu em jogar.
- Ok. Só que eu não perguntei o que você achou. Eu não perguntei como você quer beber. Quem decide a maneira que as coisas serão feitas sou eu. Mas se você não quer assim, não há problema algum. – Ela disse com muita calma. Virou-se para trás e soltou a guia da coleira. – Pode tirar isto. Para mim acabou. Vá lá para dentro. Vou mandar que tragam suas roupas.
Ele levantou rapidamente, e começou a andar em direção à casa. Ela então falou:
- Eu deveria saber o quanto você era fraquinho. Não mudou nada. – E então chamou-o pelo apelido dos tempos de escola. – Você não é de nada, longe dos seus amigos que puxam o seu saco.
Ele parou. Como ela sabia daquele apelido? Como ela sabia alguma coisa sobre ele? Voltou-se para ela e já estava se aproximando quando ela virou-se de frente para ele.
- Vá embora, e vá agora. Odeio gente fraca.
No mesmo instante o homem negro se aproximou e perguntou:
- Algum problema?
- Nenhum. – ela respondeu – Apenas traga as roupas do rapaz e depois acompanhe-o até a saída.
Deu mais um gole no suco e depois levantou-se. Passou por onde ele estava sem nem ao menos olhar para ele e entrou na casa.
- Espere! – ele chamou.
Já dentro da casa, ela virou-se para ele, que vinha caminhando rapidamente atrás dela.
- Me desculpe. Eu não estou acostumado com isso tudo. Por favor, vamos continuar?
Ele não sabia o que o prendia ali. Antes, tinha certeza que era a beleza dela que o enfeitiçava. Agora, queria descobrir como ela sabia que ele tivera aquele apelido. Mas no fundo, nenhuma das duas coisas eram fortes o suficiente para que ele aceitasse o que já havia aceitado até agora, e ainda o fazer querer continuar. Pensou que talvez estivesse gostando daquilo. Mas logo afastou esse pensamento.
Ela já sabia, é claro, como os homens são previsíveis. Mas ele chegava a ser tedioso. Relutava um pouquinho, mas logo se curvava diante dela. Sabia que nem precisaria ter levantado da cadeira e exibido seu corpo caminhando para dentro de casa. Esse jogo já estava ganho.
- Você sabe que se continuarmos, será castigado pelo que fez, não sabe? – perguntou para ele, virando-se ao pé da escada.
- Sim, Senhora. – ele respondeu.
- Volte lá no quintal. Pegue a guia da sua coleira e volte aqui com ela entre os dentes. – ela ordenou – Não, vamos fazer diferente. Vou esperar você lá em cima. Vá até lá com ela entre os dentes. Vou estar no quarto do fim do corredor.
Ele deu um passo, depois pensou melhor, e postando-se de quatro, foi engatinhando para fora da casa. Ela subiu a escada com um sorriso nos lábios.
V
Alguns minutos depois ele passava pela porta do quarto, assustando-se com o ambiente. As paredes eram negras, e em um canto via-se uma grande cadeira forrada de couro vermelho, parecendo um trono. Pendurados em ganchos nas paredes haviam dezenas de chicotes, de todos os tamanhos e modelos, além de relhos, palmatórias e algemas, de metal e couro. Duas tábuas de madeira formavam um X na parede, com argolas de metal nas extremidades. Uma armação de ferro em que correntes passavam por roldanas destacava-se em outro canto. Nem em filmes vira nada como aquilo. Até a cama era diferente. Sobre os pés saiam barras de metal, com várias argolas, assim como haviam argolas na cabeceira. Ficou parado na entrada do quarto, sem saber onde ela estava.
Logo ela entrou no quarto, e quando ele a viu, deixou cair a coleira que ainda levava entre os dentes. Ela estava praticamente nua, vestindo apenas um arreio de tiras de couro, que moldava-se de forma espetacular em seu corpo. Os seios volumosos destacavam-se entre as tiras, e quando ela virou-se, ele desejou ser o couro que desaparecia entre as nádegas. As pernas bem desenhadas acabavam em coxas grossas, delineadas por músculos na medida certa. Ela era uma Deusa.
Aproximou-se dele e colocou o pé em sua nuca, forçando sua cabeça para baixo, e ordenou:
- Pegue a coleira. Eu não mandei que você a soltasse, mandei?
Já com a coleira entre os dentes e o rosto amassado contra o chão, ele murmurou:
- Não, Senhora.
Ela virou-se e caminhou até a cadeira que parecia um trono. No caminho, pegou uma vara de fibra de carbono, com uma ponteira de couro. Sentou-se e ordenou que ele se aproximasse. Ainda engatinhando, ele foi ao seu encontro, parando em frente à ela. Ela fez ele aproximar-se mais, a cabeça entre suas pernas, e falou:
- Agora você vai ser castigado pela cena ridícula que fez lá fora.
Prendeu a cabeça dele entre os joelhos, e bateu a ponta de couro em sua bunda. Uma, duas, três vezes, aumentando a força. Depois da quinta achou que ele estava pronto.
- Isso foi só o aquecimento. Vou bater cinqüenta vezes. A cada vez você vai contar, e agradecer.
Recomeçou.
- Um. Obrigado.
Mais uma.
- Dois. Obrigado.
Parou.
- Você não aprende mesmo, não é? Primeiro, como eu lhe disse que deveria se dirigir a mim?
- Sempre como Senhora. Desculpe, Senhora.
- Segundo, não é pra contar um, dois, três. Quero que você conte primeira, segunda, terceira, entendido?
- Sim, Senhora.
Recomeçou.
- Primeira. Obrigado, Senhora.
Pelo menos duas vezes ele embolou-se com os números, e teve de recomeçar. A bunda parecia em carne viva, podia sentir a pele queimando. Mas o poder que ela exercia sobre ele era claro. Agüentaria mais duzentas daquelas. Ainda mais preso ali, entre as pernas dela.
VI
- Sabe que estou ficando excitada de bater em você? – ela perguntou, falando sério.
- Jura? – ele perguntou feliz. Não podia esperar a hora em que tocasse nela.
Levou um tapa no rosto. Com um dos pés ela o empurrou para longe, fazendo-o cair no chão, desequilibrado.
- Seu inútil. Nunca vai aprender como deve me chamar?
- Desculpe, Senhora. – ele respondeu, sem saber se deveria permanecer no chão, ou ficar de quatro novamente.
- Levanta, seu inútil. Vamos logo, fique em pé!
Ele obedeceu prontamente, a face direita ainda latejando do tapa que ela lhe dera. Lembrou-se de não olhar para ela, e ficou com olhando para baixo. Ela levantou-se e fez a volta ao redor do seu corpo, roçando levemente os mamilos no braço dele, deixando-o arrepiado, somente para provocá-lo. Mandou que ele colocasse os braços para trás, e pegando uma algema entre as várias penduradas na parede, algemou-o. Mandou que ele fosse até a cama, e deitasse de barriga para cima, sobre as mãos.
Enquanto ela pegava algumas cordas na parede, ele atreveu-se a olhar para ela. Já tivera várias mulheres, nunca poderia se queixar disso. Era um cara boa pinta, praticava esportes desde criança, e a sua situação financeira ajudava. Já dormira com mulheres jovens, recém saídas da adolescência, com mulheres casadas, maduras, brancas, negras, orientais. Já havia até realizado o sonho de todo homem de transar com duas mulheres. Mas nunca na vida conhecera uma mulher que sequer tivesse metade da beleza dela. E nunca havia experimentado nada parecido com o que estava fazendo agora. Mas, mais do que isso, nunca ficara assim totalmente sem reação, a mercê das vontades de alguém. Sempre fora ele quem dera as cartas.
Ela se aproximou e amarrou seus tornozelos às argolas dos pés da cama. Ficou em pé na cama, uma perna de cada lado do corpo dele, e ele não teve como desviar o olhar. A tira de couro do arreio separava os grandes lábios da sua vagina. Uma onda de excitação percorreu seu corpo. Quando ela sentou sobre a sua barriga, ele gemeu baixinho.
- Agora nós vamos fazer o seguinte, preste atenção. – ela falou – Você está realmente me excitando, garanhão. Então vou tirar umas casquinhas de você. Mas, não permito, veja bem, eu não permito que você se excite. Se eu achar que você está começando a ficar de pau duro, vou lhe castigar.
Ele, que já sentia o sangue inchando seu pau, respondeu meio desesperado:
- Sim, Senhora.
Ela inclinou o corpo um pouco para trás, deslizando uma mão até o pau dele.
- Vamos ver, vamos ver. Quem sabe você não ganha um prêmio, logo mais?
O toque macio da mão dela em seu pau, mais a possibilidade dela ser o prêmio, não ajudou muito a tentativa dele de não se excitar. Mas afinal, controlou-se.
Ela passou as unhas no peito dele, arranhando-o. Ele subiu o olhar, e viu os seios dela a menos de um palmo do seu rosto, implorando para serem tocados, chupados.
- Fecha essa boca, ou amordaço você.
A voz dela era dura e fria. O olhar, cruel. Quando ela levantou-se, ele achou que ela iria pegar a mordaça. Mas ela voltou com uma vela acesa. Sentou novamente na barriga dele.
Com o primeiro pingo, veio o primeiro grito. E o segundo tapa no rosto.
- Cala a boca, frutinha!
Mas doía demais, e ele não conseguia conter os gritos.
- Veja só, - ela falava – o fodão, o comedor, não agüenta uma cerinha de vela.
- Ai, ai, ai. Isso dói pra caralho!
- No caralho? Ok, você é quem sabe.
Pingou a cera quente no saco dele. Depois deliciou-se com o urro de dor.
- Não, não, por favor não! Aí não.
- Ué! Qual o problema? Acha que esse pau é muito valioso pra sofrer? Ou você acha que seu sobrenome conhecido vai me fazer parar?
- Tá doendo!
- Do que adianta sua foto na coluna social agora, playboyzinho?
Ela ia falando e pingando a cera em todo o corpo dele, a vela distante poucos centímetros da pele.
- Ou todas as suas medalhas e troféus em provas de equitação?
A dor persistia, mas agora de maneira diferente. Ela o estava humilhando, e o pior é que ele estava gostando.
- Nas suas viagens por Nova York, Londres, Madrid, alguma vez você se deu conta do quanto era trouxa aparecer no jornal embarcando e desembarcando, só porque o seu pai é rico? Fala sério, você acha isso bacana? Acha que é melhor do que alguém, por isso?
- Não, Senhora.
Pegou-o pelos cabelos, puxando sua cabeça para cima, e falou, com a boca quase colada na dele:
- Repita comigo, seu merdinha. ``Eu não sou nada. Sou só um babaca filhinho de papai´´.
- Não vou falar isso, Senhora. Você não me conhece. Eu não sou um merda.
Levou uma seqüência de tapas no rosto.
- Eu decido o que você é, escroto. Deu pra entender?
Ele só moveu afirmativamente a cabeça.
VII
- Sabe que humilhar você está me deixando em ponto de bala? – ela disse, pondo-se em pé.
Correu as mãos pelo próprio corpo, subindo pelas coxas, entre as pernas abertas de cada lado dele, passando pela barriga, apertando os seios.
- Vou lhe mostrar como estou. – afastou a tira de couro e enfiou o dedo médio na vagina, depois passou o dedo melado no rosto dele. – Sentiu?
- Sim, Senhora.
Continuou provocando-o, sem deixar de insultá-lo, sabendo que ele não agüentaria muito tempo. Logo o pau estava duro como uma rocha, para desespero dele.
- Eu não disse que não era para você se excitar? Eu deixei você se excitar?
- Desculpe, Senhora. Eu não resisti.
Ela pegou um pedaço pequeno de corda, e amarrou firmemente, dando voltas, o saco dele e a base do pau duro. Ele contorcia-se de dor, mas em nenhum momento pediu que ela parasse. Punhetou um pouco o pau dele, falando:
- Quer saber? Eu estou pronta. Pronta para ser comida.
Ele suspirou aliviado. Enfim o momento que ele esperara até agora. Já imaginou-a sentando no pau dele, cavalgando-o ali mesmo, amarrado e algemado. Mas não foi isso que aconteceu.
Ela foi até a porta, e assobiou. Em pouco tempo o mesmo homem negro que levara a comida para ela no pátio, entrava pela porta, totalmente nu. O pau, mesmo semi ereto, era absurdamente grande. Ela ajoelhou-se, tomou-o nas mãos e depois enfiou na boca.
Logo não entrava mais da metade do pau dentro da sua boca, então ela esticava a língua e lambia toda a extensão do pau preto. E ele ali, agora mais humilhado do que nunca.
Ela subiu na cama e ficou de quatro, as mãos de um lado do corpo dele, os joelhos de outro. Os seios tocavam-lhe a barriga. O negro posicionou-se atrás dela, e fez o pau desaparecer dentro da vagina. Quando ela acostumou com o volume, começaram as estocadas. O corpo dela movia-se para frente e para trás, roçando no dele, deixando-o maluco. A dor no pau e no saco aumentara violentamente, tornando-se quase insuportável. Ele daria qualquer coisa para estar no lugar do negro. Os gemidos dela eram música nos seus ouvidos, e então ela falou:
- Você gostaria de estar me fudendo, né?
- Claro que sim, Senhora.
- Você teve a sua chance, sabia? – ela falava com os dentes semicerrados, o olhar perdido, sentindo o prazer da penetração e de dar a tacada final nele.
- Eu bebi demais ontem, Senhora.
Ela riu. Realmente ele não a reconhecera.
- Não, seu retardado. Faz muito tempo. Mas você achava que era demais para mim. Me achava muito feia. Ou quem sabe você era rico demais, e eu muito pobre para você.
Mexia os quadris para frente e para trás, para os lados, enquanto o negro aumentava o ritmo das estocadas.
- Eu nunca vi você, Senhora. Jamais acharia que você é muito feia. Você é linda.
- Fode, me fode forte! – ela gritou para o negro, depois voltou-se para ele – Já imaginou se fosse o seu pau dentro de mim? Eu sonhei com isso, sabia?
Ela só podia estar de brincadeira. Nunca havia visto ela. Quem, em sã consciência, deixaria passar uma mulher daquelas? Mas seus pensamentos eram entrecortados. A dor estava insuportável.
Sentiu o corpo dela estremecer sobre o seu, se contorcer, enquanto ela gritava que estava gozando. Depois sentiu o peso dela quando soltou o corpo, descansando sobre ele. Como um passe de mágica, o negro desapareceu.
VIII
Após alguns minutos praticamente largada sobre ele, o silêncio era quase total no recinto, apenas cortado pela respiração pesada dela, e seus próprios gemidos de dor.
Ela levantou-se, e soltou a corda que envolvia seu pau e testículos. Ele suspirou aliviado. Soltou também suas pernas, deixando-o somente com a algema nos pulsos. Mandou que ele levantasse, depois conduziu-o até o móvel de barras de ferro com as correntes penduradas.
Ordenou que ele deitasse no chão, e prendeu seus pés em tornozeleiras de couro, presas nas correntes. Acionou um botão, e as correntes começaram a ser esticadas automaticamente, logo puxando as pernas dele para cima.
Já totalmente suspenso pelos pés, de cabeça para baixo no ar, sentiu a mão dela tocando seu pau, que logo endureceu novamente. Começou a masturbá-lo, e falou:
- Você se saiu bem, confesso que achei que era mais fraco. Bem que poderia continuar sendo meu escravo.
De cabeça para baixo, parecia que seus sentidos estavam alterados, a excitação multiplicada. Não demoraria a gozar.
- Eu adoraria, Senhora.
- Quem sabe. Mas você teve a sua chance, já lhe falei. E não aproveitou.
- Eu não lembro disso, Senhora.
Ela aumentou o ritmo da punheta.
- Aposto que você lembra. Você me humilhou. Me fez de boba, me fez passar por ridícula.
- Jamais faria isso com você, Senhora.
Não sabia muito bem do que ela estava falando, só sentia a fricção no seu pau, enquanto olhava o corpo dela de ponta cabeça.
- Mas você fez, seu merda. E agora você está pagando por isso. Mas isso é só o começo.
Ele não agüentou mais e gozou. A porra veio forte, em grande quantidade, e ela, experiente que era, conseguiu posicionar o pau de maneira que a maioria dos jatos fossem parar justamente no rosto dele. Ele tentou se esquivar, mas terminou com o queixo, a boca, o nariz e os olhos praticamente cobertos com a própria porra. Ainda sentia os últimos espasmos no corpo, quando ela falou:
- Desta vez você se deu mal, fodão. Lembra dos tempos de colégio? Lembra quando aquela menina que usava óculos, era gordinha e cheia de espinhas no rosto, que era apaixonada por você escreveu uma longa carta de amor? Você lembra o que você fez, seu babaca? Pois eu lembro. Você tirou fotocópia da carta, e espalhou pelo colégio inteiro. Não havia uma sala de aula que não tivesse a carta colada no mural. – passou a gritar – Você não tinha o direito de fazer isso!! Eu passei muitas noites pensando no que escrever para você!! Eu perdi um final de semana pensando na melhor forma de lhe entregar!! Eu precisei mudar de escola depois daquilo!! Por onde eu andava, todos riam de mim!!!
Ainda de cabeça para baixo, o rosto todo melado, ele perguntou, incrédulo:
- Nathalie?? Você é a Nathalie??
IX
UMA SEMANA DEPOIS
Já se passaram sete dias, e ele recebeu o sétimo e último e-mail. Nem se deu ao trabalho de conferir os endereços para que foram remetidas as cópias. Já tinha feito isso nas seis vezes anteriores. Sabia que ali estavam o endereço eletrônico de todos os seus amigos, de pessoas que ele havia conhecido desde que era criança, de ex-namoradas, enfim, de praticamente todo mundo que o conhecia.
O vídeo anexado terminava quando ele finalmente descobrira quem ela era, a imagem congelada de seu rosto todo melado da própria porra. Ele estava acabado. Desde o primeiro e-mail, não saíra mais na rua, e nem atendera o telefone. Sua reputação já era. Não sabia como seria sua vida daqui pra frente.
Relembrara, relembrara, e não entendia como não pôde notar as câmeras espalhadas pela casa. Agora era tarde demais.
Como nos seis e-mails anteriores, apertou a opção de responder. Já não sabia mais o que escrever para ela. De toda forma, ela não respondia mesmo. Aumentou o volume do CD Player, e digitou o refrão da música que estava tocando: ``Você tem que entender, você nasceu pra mim, eu nasci pra você. Me deixa ser teu animal de estimação, me leva de coleira pra passear na Redenção*”.
FIM
* Teu Animal de Estimação (Edu K) – DeFalla – CD: Superstar/2002